DIA DA MULHER. POR QUE LUTAMOS?

Dia da mulher. Por que lutamos?

DIA DA MULHER. POR QUE LUTAMOS?

Em tempos da efervescente e incessante luta pelo respeito e ampliação dos direitos das mulheres, estava eu numa roda de ideias com os temas em questão bailando pelo salão, até que um dos presentes levanta a mão e expõe:

“Não entendo a luta de vocês, não percebo essa tão falada diferença  salarial entre homens e mulheres. Além do mais, estupro e assédio já são crimes, portanto não sei pelo que vocês lutam.”

O comentário vem como um meteoro, abrindo um enorme abismo de repudio e indignação.

Como assim não percebe a diferença salarial? Como assim estupro e assédio já são crimes, e isso basta?

Como se o fato de tipificar uma conduta como criminosa bastasse para tais práticas não acontecerem. Nenhum agressor pensa: “Nossa, quero assediar aquela mulher! Ah, mas é crime, né?! Então, não vou, eu cumpro a Lei!”.

Não, ao contrário, tais condutas continuam acontecendo, a criminalização acaba, em sua maioria, servindo apenas como punição de algo que já aconteceu, para remediar um mau feito, é sabido que estar tipificado em Lei pouco coíbe ou evita a conduta, apesar desta ser uma de suas funções.

E o questionamento continuava… “Para que vocês lutam?”

Realmente, Estupro, Assédio, Agressão, Homicídio são condutas já criminalizadas, para estas exigimos justiça e aplicação da Lei com vigor.

Nossa luta vai bem além disso, lutamos por tantas outras condutas abusivas acobertadas pelo véu da normalidade, que não são crimes, mas são prejudiciais e ofensivas tanto quanto:

Deixar de contratar uma mulher porque ela pode engravidar e entrar em licença maternidade não é crime, mas é absurdo e acontece todos os dias.

Gritar no meio da rua que uma mulher é “gostosa”, não é crime, mas é abusivo.

Olhar para uma mulher de maneira lasciva, não é crime, mas é constrangedor e incômodo.

Sugerir que mulher quando obtém um cargo de destaque o consegue por ter prestado favores sexuais aos seus superiores, e não por competência, não é crime, mas é maledicente.

Dizer que uma mulher é fácil, que usa roupa insinuante e que é meio safada porque gosta de sexo e, consequentemente, torna-se “meio” culpada pelas agressões e violência que sofre, não é crime, mas é desumano.

Justificar a conduta do agressor baseada na conduta da vítima não é crime,  mas é baixo e torpe.

Lutamos para diminuir os obstáculo galgados pelas mulheres, para nos colocarmos em pé de igualdade de direitos e pela proteção real desses direitos.

Lutamos mais ainda para mudar a cultura do achar natural fazer piadas e apontar uma mulher como um pedaço de carne, julgá-la pela roupa que veste, pelo número de parceiros que tem ou pelo modo que norteia sua vida sexual.

Nossa luta é contra essa mentalidade vil que não só aceita, mas contribui para que mulheres sejam apedrejadas moralmente sem nada fazer, vitimizando culpados,  procurando um motivo plausível para práticas monstruosas, e pior, culpando a vítima por ter motivado a conduta atroz do seu algoz.

Nossa luta vai muito além de engrossar o Código Penal, nossa luta é para mudar mentalidades como esta, que vivem num mundo fictício, tendo plena certeza de que tudo vai bem, que não há violência contra a mulher, que não há diferença salarial, que simplesmente ignora, por desconhecimento ou descaso, o fato de que uma mulher é estuprada a cada três horas e que a cada hora e meia uma de nós é assassinada pelo seu companheiro.

Se cobrir com o manto da Lei e empunhar a legislação em riste, aceitando e vomitando “já é CRIME” pode conformar a muitos, mas não deixa de ser uma postura covarde  que só faz fortalecer a cultura de falta de respeito pela mulher. Nossa luta é para tornar a mulher soberana da sua vontade, assumindo de vez seu espaço e assim estampando no mundo o seu valor como MULHER!

 

Por Paula Nigama

   

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